‘Diários’ de Celso Furtado contêm décadas de reflexão sobre um país que não se confirmou

Postado por Cidadã FM em 06/nov/2019


– Para Ricupero, economista era “símbolo de um Brasil que acredita em si mesmo”. A tradutora Rosa Freire, viúva de Celso, diz que ele foi punido por “pensar no país” por Vitor Nuzzi, da RBA

– A dimensão política do Brasil está exigindo uma reflexão nova e um esforço considerável dos que têm a responsabilidade da coisa política, porque as enormes disparidades das condições de vida não constituem apenas um fenômeno econômico, mas político e social, escreveu Celso Furtado em 25 de agosto de 1983, apontando a necessidade de participação “de todas as forças sociais na estrutura de poder”.

–  O trecho faz parte dos Diários Intermitentes – 1937-2002, dia  4 em São Paulo com um debate sobre os rumos do país e a importância de se pensar em um projeto de desenvolvimento que envolva soberania e justiça social.

– O ex-ministro e diplomata Rubens Ricupero lembra, por exemplo, de questionamentos de Celso Furtado expressos em carta, que ele lê: devemos aceitar a crescente internacionalização dos circuitos monetários e financeiros? Temos que renunciar a uma política de desenvolvimento? Quais as consequências da retração do emprego?  “Ele foi um profeta daquilo que hoje estamos vivendo”, conclui Ricupero, para emendar: ele, pelo menos, não passou pelo sofrimento de “testemunhar esse retrocesso sem precedentes na nossa história”. Para ele, “Celso era o símbolo de um outro Brasil, de um Brasil que acreditava em si mesmo”.

– Os Diários reúnem anotações ao longo de seis décadas e meia, dos 17 aos 82 anos. São “intermitentes” porque há períodos de escrita intensa, contínua, e outros de silêncio. O conteúdo revela sempre a “tarefa ingrata”, como disse certa vez, de pensar o Brasil. E também foi punido por isso, ao fazer parte da primeira lista de cassados – era o número 11 – após o golpe de 1964, no Ato Institucional (AI) 1. “Toda cassação é mesquinha e aberrante. A dele é particularmente boçal”, afirma o professor e historiador Luiz Felipe de Alencastro, para quem Furtado foi vítima de ódio dos “coronéis” por ter criado e implementado a Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

–  Hoje fala-se muito do AI-5, observa Alencastro, mas foram vários, e “cada um deles foi uma punhalada na liberdade democrática”.

– A extensa produção de Celso foi reunida em 450 páginas pela tradutora Rosa Freire d´Aguiar, viúva do economista e responsável por seu acervo, que recentemente foi doado ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP). 

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